Revista Statto

A idade mais feliz

13/09/2018 às 11h59

Qual a vantagem de se chegar à velhice? Essa pergunta, feita por uma mulher que devia ter por volta de 60 anos, me pegou desprevenida e sem resposta, algo raro para mim que sempre encontro argumentos para revidar. Fiquei surpresa e ao mesmo tempo chocada com o seu questionamento porque sou rodeada por pessoas que amam viver, que fazem de tudo para prolongar a vida, enfim, que se alegram em estar ainda “por aqui” e envelhecendo. Entre elas, meu pai: “há um concurso entre os idosos para ver qual vai mais longe e quero ganhar”, diz ele, que tem um projeto organizado – e com muita disciplina – para chegar até aos 120 anos. Bem, tudo isso para dizer que após pensar muito, cheguei a uma simples conclusão: a velhice com certeza será melhor para quem é intelectual, e explico. Provavelmente alguém que não tenha amor à arte e todos os seus tipos de manifestações, ansiará por viver tanto e aproveitar todas as chances fantásticas que a medicina e a avançada indústria de medicamentos nos dão hoje.

Quando as festas, as confraternizações em bares e restaurantes, as viagens a turismo, as longas caminhadas, e outras formas de lazer que exigem muita disposição física acabarem ou ficarem difíceis de serem feitas, o que sobrará? Os livros, as sessões de cinema, as peças de teatro, os concertos de música, as exposições em museus e galerias de arte, enfim, tudo o que nos exige apenas sensibilidade, visão e audição.

Sim, porque chegará uma hora em que as pernas não serão mais tão ágeis. Há, mas isso é óbvio…Nem tanto assim… Dificilmente uma pessoa que não teve durante a sua existência uma vida cultural cotidiana, que não soube admirar a arte e todas as suas possibilidades de se emocionar, surpreender e aprender, vai passar a gostar de visitar museus, entrar na fila do cinema ou percorrer shows musicais depois da maturidade. Quando converso com os conhecidos que encontro no cinema, percebo que assim como eu elas têm uma longa trajetória de sessões da sétima arte no currículo. São cinéfilas de carteirinha e acompanham os lançamentos. E, a maioria, lê muito, uma média de quatro livros por mês.

Claro que ter uma velhice assim, rica intelectualmente, geralmente é privilégio de quem vive em uma Capital como Porto Alegre, onde existem dezenas de opções culturais por semana, muitas delas gratuitas. Há projetos fixos que apresentam música de excelente qualidade gratuitamente na terça-feira, na Biblioteca Pública, e nas quartas e quintas-feiras no Teatro São Pedro. Salas de cinema onde passam filmes “para adultos” são 11, com destaque para as três do Guion, o reduto desses cinéfilos de cabelos brancos. E olhe que nem estou mencionando as que ficam em shoppings, onde passam filmes que geralmente não atraem esse público de que estou falando, o “vivido e sabido”, que gostam mais de filmes alternativos, geralmente europeus. O cine do Santander, que fica dentro de um “antigo cofre”, exibe ciclos de filmes clássicos, o Itaú, lançamentos italianos, e sempre há o Festival Varilux, de filmes franceses recentes. Há ainda o cinema da Ufrgs, com duas exibições diárias gratuitas. A Casa de Cultura Mário Quintana com preços subsidiados, e o cine Bancários, que exibe filmes que geralmente não são populares, mas que encantam porque nos mostram culturas de outros continentes para que saibamos como vivem as pessoas de outros lugares do mundo.

Porto Alegre hoje é uma das capitais com maior oferta de atrações culturais do país, perdendo, talvez, apenas para Rio e São Paulo. Todos os dias há algo para assistir por aqui, e olha que não estou falando somente dos shows de grandes estrelas da música, como acontecem semanalmente, como neste mês, do Chico Buarque e dos Tribalistas, para citar apenas dois, ou peças de teatro com celebridades globais.

 

Estou me referindo às atrações com preços mais acessíveis aos bolsos dos aposentados. E, com certeza, o que torna a cidade interessante é essa diversidade de coisas para assistir, para conhecer, para se emocionar. Programações culturais que requerem apenas sensibilidade, ouvidos e olhos atentos, mente e coração abertos. Enfim, quando cruzar novamente com àquela mulher, vou lhe responder: a vantagem da velhice é ter mais tempo para ler, ir ao cinema, ouvir música…

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Claudia Moritz

Por

Jornalista. Porto Alegre/RS