Revista Statto

Aproveite a sua jornada, meu amigo

17/12/2018 às 17h00

Certo dia eu estava na cidade de Welland, no Canadá, finalizando a preparação para o Pan Americano de Toronto que ocorreria dentro de uma semana. Após uma sessão de academia, o treinador sugeriu que saíssemos para correr na rua e relaxar um pouco a cabeça.

Eu optei por ir sozinho e escolhi um caminho bem arborizado, num daqueles lindos bairros canadenses. Logo na primeira esquina em que dobrei, eu avistei um senhor, que em frente a uma casa descansava sentado na sua cadeira de rodas. Na medida em que me aproximava dele, já intencionava cumprimenta-lo. Mas antes que eu fizesse, fui surpreendido com as suas palavras. Ele disse assim: ”enjoy your track, my friend” (aproveite a sua corrida/caminhada, meu amigo), seguido de um largo sorriso. Em resposta, desejei que ele tivesse um bom dia e continuei correndo.

 

A partir daquele momento eu me vi em profunda reflexão sobre o que havia escutado minutos antes. Um senhor, de aproximadamente 80 anos de idade, sentado em uma cadeira de rodas e notavelmente debilitado, me estende um sorriso e palavras tão gentis. No seu olhar, percebi sua imensa alegria em proferir aquilo.

Parece uma atitude tão simples, mas teve um significado muito importante para mim. O que ele disse, ecoou em meus pensamentos como ”aproveite a sua vida – aproveite a sua jornada, meu amigo”.

Imagino que se ele pudesse ainda desfrutar da sua mobilidade física e jovialidade, assim o faria sem hesitar. E pelo que pude perceber brevemente, a falta de algo que o tempo naturalmente lhe tirou, não o colocou numa situação de vítima. Pelo contrário, ele estava ali para, quem sabe, motivar outras pessoas a viverem.

De fato, mais certezas eu não tenho. Mas uma coisa eu posso garantir, o simples gesto daquele senhor me fez refletir sobre as minhas próprias motivações para viver.

E não precisei pensar muito para perceber o quanto é fácil cairmos nas armadilhas da nossa mente, ao ponto de não valorizamos os privilégios que a vida nos deu. E para mim, o principal desses ”privilégios” é possuir uma boa saúde.

Do Canadá para o Brasil e mais especificamente para Santa Maria, a cidade que eu moro hoje, percebo que pessoas iluminadas como este senhor estão por todas as partes. São pessoas que nos ensinam com atitudes e gestos, muito mais do que com palavras. São pessoas que entendem que o real significado da vida, é viver. São pessoas como o meu amigo Denilson Souza, que eu tive a alegria de conhecer há cerca de sete anos.

Quando ainda era jovem e militar do exército, Denilson se viu furtado da sua liberdade de caminhar, ao sofrer uma queda de um telhado. Mesmo perdendo algo tão precioso, ele teve coragem para colocar a sua felicidade em pé novamente, utilizando, para isso, o esporte.

Denilson conta que na véspera de sua alta hospitalar, o médico nem cogitou a ele a possibilidade de praticar esportes. Foi então que Denilson viajou para Brasília, no Distrito Federal e iniciou um tratamento de reabilitação no hospital Sarah Kubitschek. Sem deixar a cabeça se ocupar com pensamentos negativos, ele decidiu provar a si mesmo que apesar da queda, a sua liberdade ainda estava intacta. No Sara, Denilson passou a praticar basquete sobre cadeira de rodas, seguido de natação e tênis de mesa. Sua motivação foi ver a própria família orgulhosa pelo caminho que ele estava tomando ao deixar de ser ”inválido”, como ele mesmo diz.

Quando indagado sobre o que sentiu ao praticar esporte pela primeira vez após o acidente, Denilson resume em uma só palavra: liberdade!

Com os seus gestos de coragem e determinação, Denilson me inspira todos os dias, tal como o simpático senhor canadense. Ao tentar encontrar algo em comum entre ambos, as primeiras coisas que me vêm em mente é a energia e a vitalidade que ambos carregam no olhar e nas suas atitudes. Para mim, é uma imensa alegria tê-los encontrado no trem da vida, pois eles são passageiros iluminados.

Foto: Liz Lemes
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