Revista Statto

O CINEMA É LIVRE

02/08/2019 às 09h15

Neste espaço da revista uso para falar sobre uma das minhas paixões que é a sétima arte. Levando a você, leitor, análises, observações, uma visão diferente da obra. E quando o cinema é ofendido sinto-me na obrigação de defendê-lo.

Na quinta-feira, 25 de julho, em uma Live no Facebook o Presidente Jair Messias Bolsonaro, claramente ataca a Agência Nacional de Cinema (Ancine). Durante todo o vídeo, ele fala muitas atrocidades, como que, para ele é absurdo ter um representante da UNE (União Nacional dos Estudantes) em um projeto de políticas antidrogas, ou a quantidade de tiros que o cidadão dá em alguém em legitima defesa não é relevante.

Já como esta coluna é sobre Cinema, irei me ater em comentar a parte sobre o que ele fala sobre a Ancine. No vídeo ele remete a sua crítica sobre o filme “Bruna Surfistinha” feito com dinheiro público depois tenta abrandar dizendo que não iria ter censura para tal tipo de filme, mas, logo depois diz que esses filmes sejam feitos com dinheiro público.

Ele continua dizendo que transferiu a sede da Agência do Rio de Janeiro, cidade a qual tem um grande número de artistas que trabalham com Cinema, para Brasília para ele “ficar de olho nesse pessoal” e continua com algo mais absurdo. O nosso presidente, está tentando extinguir com a Ancine.

O pobre Presidente, não pode falar nomes de filmes patrocinados pela Ancine no ano passado, pois há crianças assistindo. Lembrando que a Agência patrocinou o filme da Turma da Mônica. Dei uma pesquisa rápida no Google e encontrei o site huffpostBrasil, que fez uma lista dos dez melhores filmes brasileiro de 2018. Nessa lista há três documentários, um sobre o Impeachment de Dilma Rousseff, outro sobre o avanço de igrejas neopentecostais nas aldeias indígenas e por último um que mostra batalhas de poesias.

Na lista há também filmes de terror, outros que relatam temas que dizem respeito a natureza humana, e outros que discutem temas recentes ou denunciam problemas que permeiam a nossa sociedade. Nenhum, dessa lista, é voltado para o público infantil, no entanto, não há nada absurdo que uma criança não possa ouvir nos títulos como “Benzinho”, “Arábia”, “Nossa Canção de Amor” (Lembrando que esse mesmo Presidente tuitou no começo do ano “o que é golden shower” levando a pátria a uma humilhação internacional).

Essa fala de Jair Bolsonaro é preocupante em muitos níveis. O presidente, que parte de um pressuposto de que artista é vagabundo e não serve para nada, ele perde uma grande chance de investimento e geração de empregos. A indústria do cinema gera empregos direta e indiretamente além de aquecer a economia já que é um produto que milhões consomem todos os dias. Se o Presidente for esperto, ele usará isso a favor dele, pois, um dos maiores desafios do seu governo e diminuir a taxa de desemprego.

Especificamente, o filme nacional, expõe o Brasil para o mundo. Pegando a exemplo dos filmes estadunidenses, reparem no seu cotidiano, como você conhece o Halloween, ou histórias como Slenderman ou Jason? Como você conhece lendas e costumes estadunidenses se não pelos filmes e séries que consumimos? A indústria cinematográfica pode ser uma porta de entrada para estrangeiros conhecer com mais clareza o nosso país. E como você bem sabe, isso gera um consumo maior de nossos produtos.

Vale chamar a atenção que o dinheiro que direcionado para os filmes não é retirado de nenhum outro lugar como o da área da educação ou da saúde. Os discursos do Presidente têm muito essa justificativa, que, ao invés, de investir em entretenimento investir em saúde e educação, mas isso não faz sentido, por que a verba direcionada para essas áreas é diferente das direcionadas para a Ancine. E olhando suas atitudes, vê-se uma hipocrisia pois foi em sua gestão houve um contingenciamento de verbas que prejudica bolsas de pós-graduação e uma série de remédios foram retirados do SUS.

Outro ponto preocupante da fala de Bolsonaro é querer “filtrar” os filmes produzidos. No vídeo ele diz que não terá censura, porém ao afirmar que mudou a sede pra Brasília para “ficar de olho” e querer escolher o que se pode produzir e que não se pode produzir é visivelmente uma censura.

Não se pode chamar as pessoas de fascistas assim tão aleatoriamente, entretanto, as ações do presidente vão de encontro com um autoritarismo onde só quem tem razão é quem concorda com ele.

Defender a arte, não é defender vagabundos ou indecentes, e sim defender a liberdade de expressão e a democracia. É da arte, junto com a educação, que vem a reflexão, a crítica, opinião e a cultura identitária de um povo. Atacá-la, é atacar o povo diretamente.

Para que não restem dúvidas de como o nosso Cinema Nacional é ótimo (Acabamos de ganhar o Festival de Cannes), farei um especial de resenhas com os filmes nacionais. (e não precisam tirar as crianças da sala.)

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