Revista Statto

AS ASSOMBRAÇÕES DA NOVA CASA

23/06/2020 às 13h31

Quando a mãe de Arthur disse que era para começar a arrumar tudo nas caixas para a mudança ele perguntou: – Vamos mudar para outro apartamento do condomínio?

– Não Arthur! Faz tempo que estamos falando que poderíamos mudar para outra cidade.

– Para outra cidade? – Repetiu o menino já com as lágrimas descendo pelo rosto e a voz chorosa.

A mãe, carinhosa, sentou-se na cadeira e estendeu os braços para que o menino se aproximasse e ele quase se jogou já chorando alto enquanto tentava falar.

– Calma, Arthur! Por que você está chorando?

– Não quero mudar de cidade. Não quero morar em outro lugar.

– Por que não? É uma cidade linda!

– Não! Quase gritava Arthur chorando.

– Ouça, meu amor. – Disse a mãe, tentando acalmar o filho. – Não estou entendendo por que você está chorando.

– Para outra cidade não vou! Vou ficar aqui com meus amigos. Na outra cidade não tenho nenhum amigo.

– Não precisa chorar! –Disse a mãe secando as lágrimas do menino com um guardanapo que pegou sobre a mesa. – Você já tem oito anos e sabe que vai continuar conversando com seus amigos pelo telefone e pela internet.

Arthur chorava mais ainda, desesperado. Pensar em ficar longe dos amigos o deixava muito triste.

– Não é a mesma coisa mamãe! – Falava entre os soluços. – Brincamos todos os dias. Jogamos futebol, assistimos filmes, vamos às festas juntos. Não quero mudar mamãe, por favor.

– Meu filho, lá você vai ter muitos amigos também.

– Não! Não quero novos amigos! Gosto dos meus amigos, mamãe.

– Vamos fazer assim, agora você vai lavar o rosto e eu vou fazer um delicioso lanche para você, depois a gente volta a conversar, está bem?  – Disse a mãe enquanto levava Arthur para lavar o rosto.

O choro do menino não mudaria os planos de mudança. Guilherme, o irmão mais velho de Arthur, ia estudar na faculdade da outra cidade e sua irmã também iria no próximo ano, então, seus pais decidiram se mudar para dar mais assistência aos filhos. A mãe, professora, pediu transferência para trabalhar na outra cidade e assim que a transferência saiu, o pai, Marcos, viajou para procurar uma casa para a família morar. Arthur e a mãe iam à frente com a mudança. O pai e os dois irmãos mais velhos ficariam na casa da avó até que pudessem ir.

O dia chegou. Na estrada, durante a viagem, Arthur quase não conversou e quando o carro parou, olhou para a mãe que sorrindo, disse: – Chegamos! Veja a casa linda onde vamos morar! – Ele olhou para fora e ficou por algum tempo observando a casa até a mãe chamá-lo.

– Vamos Arthur! Anime-se, vamos conhecer a nova casa.

Ainda demonstrando toda a sua contrariedade, Arthur saiu do carro e seguiu a mãe. Ela abriu o portão e, subindo os degraus para chegar à porta, olhou para trás para se certificar que o filho a seguia. Ao entrar na casa, exclamou alegre: – Nossa! Como é grande esta sala! Venha meu filho, vamos conhecer a casa.

Andaram pela casa e encontraram um quintal bem grande com várias árvores e algumas tinham frutas.

Arthur sorriu, sempre havia morado em apartamento e agora tinha um quintal com pés de frutas. Andava por entre as árvores e foi surpreendido por algo que mexeu o capim, olhou rápido e viu um gato que saia correndo. – Mamãe, mamãe! – Gritava Arthur correndo para a casa.  Encontrou com ela que veio saber o que se passava.

– Você precisa ver uma coisa. – Disse ele puxando a mãe pela mão a levando pelo quintal enquanto apontava para o lado que o gato havia ido. – Ele está daquele lado.

– Quem foi para aquele lado? Perguntou a mãe.

– O gato da casa.

– Não estou vendo. Deve ser de alguma casa vizinha.

– Posso ficar com ele?

– Quando ele voltar você pode conquistar a confiança dele, chegar perto, dar algo para ele comer, fazer carinho, mas ele deve ter dono, o que não impede que seja seu amigo.

Ele sorriu. Ficaria esperando que o gato voltasse para fazer amizade com ele.

A mudança chegou ao mesmo dia e os móveis foram colocados nos lugares. Arthur escolheu um quarto e, da janela, ficou olhando a rua, as casas e os poucos carros e pessoas que passavam.

Em sua primeira noite na casa, acordou quando ouviu gritos, puxou o cobertor e ficou alerta. Aqueles gritos pareciam que vinham do quintal da casa. Ficou por muito tempo ouvindo os gritos, às vezes alto e outras vezes baixo. Assim como começou, de repente acabou, mas ele demorou a dormir pensando naqueles estranhos gritos.

Na manhã seguinte, logo que se levantou, foi ao quintal e andou por todo lado, mas não havia nem sinal de que alguma coisa havia acontecido ali.  Perguntou a mãe se ela tinha ouvido o barulho estranho à noite. Ela respondeu que estava tão cansada que não ouviu nada.

Alguns dias depois outro barulho fez Arthur perder o sono. Estava começando a chover e de repente ouviu um som como se alguém estivesse arranhando e batendo na parede. Se enchendo de coragem saiu andando pela casa tentando descobrir de onde vinha o barulho e descobriu que era na parede do lado da casa que dava para o quintal.

Não voltou para o seu quarto, foi direto para a cama da mãe e mesmo assim só dormiu quando o barulho foi parando.

Tentando se acostumar com a nova casa, brincava no quintal e descobriu que no terraço dava para andar de bicicleta e brincar nos dias de chuva, por isso levou quase todos seus brinquedos para lá.

Quando ligou para seu melhor amigo, contou como a casa nova tinha bastante espaço para brincar e ficou triste de pensar que seus amigos não podiam vir brincar com ele. Assim que fosse instalada a internet ele ia filmar e mostrar a casa nova para seus amigos.

Arthur acompanhou a mãe quando ela foi conhecer a escola que ia trabalhar e conheceu Davi, menino mais velho, filho de uma funcionária, e os dois jogaram bola na quadra da escola até que sua mãe o chamou para irem embora. Ela perguntou se ele gostou de brincar com Davi e disse que todos os dias até que começassem as aulas ele podia brincar com Davi na escola e se quisesse poderia convidá-lo para ir brincar na casa nova. Ficou feliz de pensar que tinha um novo amigo.

À noite, quando ia dormir, ficava atento para ouvir os barulhos estranhos e um desses dias ouviu como se alguém estivesse andando no terraço e tropeçado em sua caixa de brinquedos. Desta vez não quis sair para descobrir onde era o barulho, cobriu a cabeça e ficou atento, pensando que deveria ser assombrações que moravam na casa. Esse pensamento fez com que ficasse com mais medo ainda, mas com o cansaço acabou dormindo.

No outro dia ele perguntou a mãe se ela achava que tinha assombrações na casa. Ela riu e disse que ouviu falar que as assombrações ficam é nas casas muito velhas e como a nova casa não é velha com certeza não tem assombrações. Arthur ficou calado, não adiantaria falar com a mãe que ele ouvia barulhos estranhos porque ela dormia e não ouvia nada.

Numa manhã, acordou cedo com a chegada do pai e dos irmãos, estava com saudades. Sua mãe estava muito feliz e fez o bolo de chocolate que ele mais gostava. Os dias passavam e numa noite, de novo ouviu o barulho no terraço, levantou e correu para o quarto dos pais.

– O que foi Arthur? – Perguntou o pai que acordou assustado com o filho subindo na cama.

– A assombração está no terraço. Ouvi mexer nos meus brinquedos.

Marcos sentou na cama e ficou em silêncio para ouvir. De repente um barulho de alguma coisa caindo. Arthur abraçou o pai e falou sussurrando: – A assombração está no terraço.

O pai levantou a mão e colocou o dedo sobre os lábios para que Arthur ficasse calado e falou baixinho: – Venha comigo, vamos ver quem é.

Os dois foram andando devagar sem fazer barulho e subiram as escadas. Arthur estava bem atrás do pai quando ele abriu a porta devagar e se deparou com o gato que brincava com a bolinha de tênis. O gato assustado correu para o muro, depois pulou na árvore e sumiu na escuridão. Arthur respirou aliviado, não era assombração, mas o gatinho que ele havia visto no quintal no dia que chegaram.

Os dias passavam e mais uma vez Arthur corre para chamar o pai por causa do barulho de alguém que arranhava a parede. Desta vez não ia ser o gato, pensou Arthur, era mesmo a assombração. Novamente os dois foram para o terraço para procurar de onde vinha o barulho. Estava escuro e ventando muito, então seu pai voltou para buscar blusa para os dois e uma lanterna.

Chegaram ao terraço, acenderam a luz e ficaram observando, ouvindo atentamente enquanto Arthur segurava a mão do pai com medo que a assombração aparecesse. Com a lanterna, o pai procurava localizar no quintal o que poderia estar arranhando a parede e percebeu que o vento estava balançando a árvore e seus galhos batiam na janela e na parede. Marcos olhou para o filho, sorriu e disse: – Viu o que está fazendo esse barulho? É o galho da árvore que está batendo por causa do vento. Não tem nenhuma assombração aqui. – Arthur sorriu aliviado e foi dormir tranquilo.

– Vem ver a lua. – Chamou o pai de Arthur. – A lua cheia parece um grande queijo. Dizem que em noites de lua cheia aparecem assombrações, será que essa noite vamos ver uma?

– Mamãe disse que tem assombrações em casas muito velhas e essa casa não é muito velha, então não tem assombração. É verdade?  – O pai riu e concordou.

Alguns dias depois, estava assistindo televisão quando ouviu uns gritos vindos do quintal. Olhou para o pai assustado. Ele riu, levantou e disse: – Vamos saber quem está gritando no quintal.

Abriram a porta e saíram devagar e logo viram dois gatos, que olhavam um para o outro e gritavam muito. Marcos disse: – Olhe!  São os gatos. Você não precisa ter medo.

Depois disso Arthur não teve mais medo dos barulhos que faziam na casa à noite, porque ele já conhecia as assombrações, que na verdade era os gatos e os galhos da árvore.

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