Revista Statto

PARA ALÉM DA MEDICINA TRADICIONAL, PRECISAMOS ENXERGAR O SER HUMANO

16/02/2021 às 16h40

Olá, eu sou Ailane Araújo e gostaria de começar as nossas conversas contando a minha história para vocês.

Nasci na Baixada Fluminense do Rio de Janeiro, especificamente em Nova Iguaçu, lugar onde passei toda a minha infância. Sou de família humilde. Meus pais se separaram quando eu ainda era bem novinha, aos dois anos de idade. Minha mãe contou com a ajuda da minha avó para me criar, sempre com muita luta.

Tive oportunidade de estudar em bons colégios porque minha mãe corria atrás de bolsa de estudos e sempre dizia que eu precisava estudar para ser alguém na vida. Na esteira deste conselho, eu já quis ser aeromoça, agente secreto do FBI e até arqueóloga – meu sonho era fazer igual ao Indiana Jones, cujos filmes que amava assistir. Até que um dia, a partir da minha identificação com Biologia, me vi interessada na área da saúde.

Intensa nos meus relacionamentos, comecei a namorar aos 16, engravidei aos 17 e fui mãe aos 18 anos. Foi quando saí de casa e assumi a batalha que é ser mulher, pobre e criar um filho sozinha.

Foi quando comecei a trabalhar em uma maternidade de hospital, fazendo ficha de pacientes que chegavam, literalmente, parindo. E foi neste ambiente que fui acolhida e orientada por um amigo, que me incentivou a estudar medicina. Em meio aos meus medos, achei que era impossível me dedicar aos estudos, sustentar meu filho, pagar uma faculdade de medicina e respirar, ao mesmo tempo. Mas segui sendo incentivada a tentar uma bolsa e consegui: entrei para a faculdade em 2001. Passei pela cirurgia e vi que, apesar do meu desejo, não era meu perfil. Talvez, pela recente experiência da maternidade, me encontrei na pediatria.

Ao longo dos anos, vi que a medicina tradicional apenas paleava os sintomas, que cada doença tinha um remédio e que, muitas vezes, com a administração continuada ao longo dos anos vinham os efeitos colaterais que demandavam de mais remédios gerando uma bola de neve. Foi aí que enxerguei que não era essa a medicina que eu queria fazer, a medicina na qual eu acreditava.

Apesar do desconforto me formei, montei uma clínica e comecei minha carreira tradicional. Convidei minha mãe para administrar a clínica, o que nos mantinha ainda mais próximas.  Foi aí que veio o câncer na minha mãe. Com ele, quimioterapia, radioterapia, mastectomia e um novo câncer. Um ciclo interminável de dor, sofrimento e dezenas de remédios se instalaram em nossas vidas até que minha mãe morreu. Essa maratona de médicos e remédios confirmou o que eu sentia há muito tempo: os médicos tratavam apenas o corpo, por partes, e nunca o paciente como um todo, desconsiderando a forma e a importância dos cuidados com a mente, as emoções, o estilo e seu propósito de vida.

Mais uma vez, me vi repensando e me decepcionando com a medicina tradicional. A morte de uma mãe é sempre um baque: fiquei muito deprimida, tive gastrite e endometriose. Vivia me arrastando, com dor, cansada, chorando e queria me enxergar em um mundo e numa profissão nos quais eu acreditasse. Entreguei minha clínica aos cuidados de uma colega e fui viver um ano sabático.

Viajei ao Peru, à Amazônia, onde conheci índios e suas ervas medicinais, buscando um novo sentido e propósito para minha carreira e minha vida. Virei vegetariana. Depois, vegana, o que me despertou o interesse de voltar a estudar nutrologia. Voltei a viajar e, na Índia, descobri a medicina ayurvédica, fiz mestrado em Reiki, estudei medicina quântica. Depois, fiz pós-graduação em psicologia positiva, coaching, estudei medicina antroposófica, florais e homeopatia.

Nessa busca por opções aos remédios e ao tratamento tradicional para a minha própria cura, de forma a tratar a causa, descobri a medicina metabólica. Ela ainda é pouco conhecida no Brasil e mesmo assim, em meio ao caos, mudou a minha vida.

Pouco tempo depois, uma nova fase. Há cinco anos, uma amiga me falou que seu pai tinha Parkinson e gostaria que eu ajudasse. Novamente com o desafio da dor, fui estudar mais.

Foi quando descobri a cannabis medicinal: fui para fora do Brasil, fiz vários cursos e meu coração inflamou de desejo de criar, no Brasil, um centro de referência em cannabis medicinal e medicina integrativa para oferecer o que há de mais moderno com relação a exames e tratamentos aos pacientes, de modo que eles possam ser tratados de forma integral, considerando corpo, mente, emoções e propósito.

Durante todo esse período muitas pessoas me procuraram para atendimento médico por verem os meus avanços, porém eu resistia em atendê-los. Voltei a praticar a medicina que eu acredito há cinco anos. Tive que reformular todos os meus conceitos, começando por um profundo trabalho de autoconhecimento para poder me posicionar de forma a ser diferente do sistema tradicional que aprendemos.

Nesta jornada, por defender a medicina que trata a causa, que olha o ser humano como um todo, que entende que saúde é um caminho que precisa ser percorrido, que vem com a prevenção através de um estilo de vida, de saúde personalizado e individualizado, enfrentei – e enfrento – muito desafios. Mas a recompensa de realmente ver a mudança na vida dos meus pacientes não tem preço.

O meu ideário de uma medicina verdadeiramente curativa tornou-se minha bandeira. Cada paciente exige um protocolo específico, de acordo com a sua necessidade. E o meu propósito é criar uma base sólida para disseminar a consciência do autocuidado e a cultura de bons hábitos para todos que desejarem obter um padrão de vida mais saudável e longevo.

A cura não é medida apenas por análises clínicas, resultados de imagens, receituários prescritos, remédios ingeridos e laudos atestando a regressão de uma doença. Pelo contrário, a cura se dá a todo momento, na mudança de estilo de vida, na superação de hábitos negativos, de crenças limitantes e na escolha pela nutrição completa de seu organismo.

Agradeço minha querida mãe por ter me mostrado e por me ensinar que eu precisava aprender e criar um novo caminho. Às vezes, me pergunto: se eu tivesse o conhecimento que tenho hoje, na época da minha mãe, o que teria acontecido? Não tenho e talvez nunca terei esta resposta. Mas o fato é que eu viveria tudo novamente para chegar até aqui.

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