Revista Statto

USE AS EMOÇÕES “NEGATIVAS” A SEU FAVOR: RAIVA

16/03/2020 às 14h50

Nos artigos anteriores falamos sobre o que são e como lidar melhor com a ansiedade e a frustração. Hoje gostaria de falar com você sobre uma emoção que às vezes pode nos tirar completamente do controle e causar um grande estrago em nossas vidas: a raiva.

Mas antes de falar sobre ela, você já parou para pensar o que são exatamente as emoções?

Elas não apenas dão mais cor à nossa vida, mas as emoções são pacotes de informações que nos sinalizam algo muito importante e por isso é crucial saber identificar e analisar elas, para tirar o melhor proveito de cada uma e tomar as melhores decisões. Estes pacotes de informações são então, na verdade, o conhecimento acumulado não apenas das suas experiências passadas, mas também o conhecimento gerado pela evolução da espécie humana. Sendo conscientes ou inconscientes, as emoções são recheadas com milhões de informações e que, quando bem utilizadas, nos permitem responder de forma mais adequada aos desafios da vida. O que devemos evitar são os extremos das emoções, que, como tudo, quando em desequilíbrio pode causar um grande impacto negativo. Por exemplo, um medo que vira fobia, uma ansiedade constante que se transforma em uma ansiedade crônica ou uma tristeza que se transforma em depressão. Mas e como fazer isso? Como se prevenir contra estes extremos?

O segredo está na sabedoria, que, como vimos no artigo anterior, podemos definir como o equilíbrio entre a sua mente racional e a sua mente emocional. Bem, acredito que não preciso te convencer sobre a importância da nossa mente racional. Nossa cultura ocidental preza muito por ela, precisamos ser “racionais”, deixar as emoções de lado se queremos ter sucesso na vida, certo? Errado.

Errado porque a nossa mente emocional trabalha de mãos dadas com a nossa mente racional. Ter consciência das suas emoções e do que está por trás delas te permite avaliar as situações de maneira mais completa: que carreira você vai seguir, se fica ou sai de um emprego que te dá estabilidade para ser mais feliz, com quem namorar ou casar, onde viver, se deve arriscar um novo negócio, são todas decisões que não podem ser tomadas apenas com a razão, mas exigem intuição e sabedoria emocional.

Mas aqui, novamente, o segredo está na sabedoria: neste equilíbrio entre o seu racional e o seu emocional para que você tire o melhor de cada situação. Assim, também é importante racionalizar para não permitir que as emoções apenas governem a sua vida. Enquanto as emoções são uma resposta rápida do seu organismo, com base em tudo o que você já viveu, a razão permite uma análise detalhada, mas lenta, com uma profundidade necessária para avaliar minuciosamente cada situação. Por isso usar ambas a seu favor é tão fundamental.

Mas e a raiva, então? Qual é o seu papel? Qual é a mensagem por trás desta emoção?

A raiva é um sentimento de impotência, uma tentativa de controlar algo ou de que a situação fosse diferente e neste sentido é muito similar à frustração. A raiva em geral é disparada por uma sensação muitas vezes inconsciente de perigo, não apenas vindo de uma ameaça real, mas de forma mais comum, por uma potencial ameaça à nossa autoestima ou dignidade. Também é uma das emoções mais sedutoras e mais difíceis de controlar, pois ela nos inunda com argumentos muitos convincentes para justificar este sentimento.

No entanto, esta mesma força que cresce dentro de nós é responsável por nos impulsionar a agir para superar as dificuldades e o que está te fazendo mal. E neste sentido dá para canalizar a raiva de forma positiva. À princípio esta ideia pode te parecer estranha, mas na verdade você já viu isto acontecer milhares de vezes: uma pessoa indignada com situação social com raiva da injustiça acaba virando uma liderança super atuante, uma pessoa demitida decide virar o seu próprio chefe abrindo um negócio de sucesso; uma criança que teve uma infância difícil acaba se tornando um pai ou uma mãe incrível; uma pessoa que sofre com uma doença grave acaba a superando e saindo dela ainda mais fortalecido.

O que move estas pessoas à princípio é a raiva, é um “não aceitar” a situação. Isto é a raiva sendo canalizada de forma positiva. Claro, estas pessoas tinham a escolha de usar esta raiva para se fechar, fazer mal a si mesmas ou às outras pessoas ao seu redor, mas elas optaram (talvez até de forma inconsciente) por usá-la ao seu favor e por isso saíram vencedoras.

Então, qual é a melhor forma de lidar com a raiva? Quanto mais ruminamos sobre o que nos deixou com raiva, mais justificável nos parece esta emoção. Assim, quanto mais no início do processo você tomar uma atitude, mais efetivo será o resultado. E qual atitude seria esta? Parar de ruminar os motivos da raiva, contestar e reavaliar a situação de outra perspectiva é o antídoto mais poderoso para aplacar este sentimento e reduzir seu poder de ação sobre nós. E dar vazão à raiva pode ser uma boa solução? De jeito nenhum! As explosões de raiva estimulam ainda mais o nosso cérebro, podendo gerar até um sequestro emocional, ou seja, aquele momento quando perdemos totalmente o controle de nossas ações. Muito mais efetivo é primeiro esfriar e depois, de forma construtiva enfrentar a situação para resolver o problema. Assim, não é para eliminar a raiva, muito menos negar ela, mas agir quando você tiver equilibrado para responder de maneira apropriada à situação que você enfrenta.

Agora para te ajudar ainda mais, vamos à algumas dicas práticas para lidar com a raiva no seu dia-a-dia:

Primeiro, não defina nada enquanto estiver irritado para não responder à situação com uma intensidade desproporcional ao que ela pede. Para conseguir se acalmar rapidamente você pode utilizar diversas técnicas informais como a da Respiração, dos 3 passos, do Perdão ou a da Compaixão, todas disponíveis gratuitamente no meu perfil no aplicativo Insight Timer. Com a prática regular você vai conseguir ampliar o espaço entre o estímulo e a resposta onde, nas palavras de Jon Kabat-Zinn é o lugar onde reside nossa liberdade. Ou seja, você ainda vai sentir raiva, mas vai perceber que existe um espaço de tempo onde você pode escolher entre simplesmente reagir mecanicamente ou responder de forma consciente.

Outra possibilidade é você simplesmente se afastar da outra pessoa ou da situação que te causou raiva, se distrair, tirando a atenção do foco que te gerou este sentimento. Neste sentido, a atividade física ajuda por liberar hormônios importantes como a endorfina que nos relaxa e dá aquela sensação de bem-estar, assim, fazer uma caminhada por exemplo, é uma boa solução. Outras distrações como a TV, leitura, cinema, também ajudam nesta distração inicial para que você, depois de esfriar, possa pensar e agir com clareza de pensamentos.

Em seguida conteste e reavalie a situação como um observador externo sem se envolver emocionalmente com os fatos. Procure analisar a situação como alguém de fora, observando tanto o seu ponto de vista como o da outra pessoa envolvida de forma racional, sem ceder a autopiedade ou ao ataque.

Bem, como vimos, as emoções são essenciais, o que precisamos é estar atentos em relação as nossas atitudes ou reações que surgem a partir delas. Você pode sim escolher entre apenas reagir automaticamente ou responder de forma consciente. Quanto mais você praticar no seu dia-a-dia técnicas de observação e gestão das emoções, maior será o seu autocontrole e maior será a sua maturidade emocional.

Não se esqueça que há sempre opções para reagir a uma emoção, e quanto mais meios você tem para lidar com as emoções (como adquirir novos conhecimentos, ampliar seu autoconhecimento, realizar práticas meditativas regularmente), mais rica e mais significativa será a sua vida.

Espero sinceramente que eu tenha ajudado você a ter alguns insights e reflexões importantes. No que eu puder ajudar, estou à disposição. Um abraço e até a próxima!.

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SOBRE O AUTOR
Juliana Feres

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