Revista Statto

A “AMÉLIA” NÃO EXISTE MAIS

13/09/2021 às 14h27

A mulher idealizada pelo poeta Mário Lago e cantada com as belas melodias de Ataulfo Alves por todos os cantos como a mulher perfeita, aquela que “…passava fome ao meu lado…” e “…era mulher de verdade…”, além de não ter “…a menor vaidade…”, não existe mais, acredito, nem nos mais longínquos lugares. Foi-se o tempo daquela mulher que aguentava tudo dentro de casa, até uns bofetes casuais do marido, novos tempos, novas mulheres.

Aquela “mulher de verdade” era na verdade uma sofredora, ia às últimas consequências pelo seu amor incondicional ao marido, ou à sua dependência, pois naqueles tempos mulher que deixava o seu marido era considerada uma vagabunda. Bonito até de pensar em gente assim altruísta, seria mesmo altruísmo ou seria subserviência nua e crua mesmo? Alguém que se despia da menor vaidade por amor a um homem qualquer. Difícil acreditar que isso fosse real, fora a letra da canção, licença poética para cativar os ouvintes, mas digamos que sim, haviam algumas Amélias por aí em 1942, ano em que foi lançada a música, mas eu acredito que não era bem assim não, mesmo naqueles tempos quando a mulher era apenas uma mulher e mais nada.

Bom, pensemos que sim, essa mulher existia em alguns lugares, qualquer uma mulher pobre e favelada fosse uma Amélia da vida real, a música não faria sentido, pois o autor exaltava as inconstâncias da vida dessa mulher como se fossem suas virtudes, aquela que aceitava as piores coisas por seu amor e não pelas circunstâncias vividas, então leva a crer que essa era uma mulher única dentre todas as outras, uma mulher ideal, desejada por qualquer homem, e que não tinha o menor pudor em amar o seu escolhido qualquer que fosse a situação vivida.

Pense hoje em dia uma Amélia, aquela “mulher de verdade”, quem hoje sabe de uma que levante a mão, não há, por um simples e bom motivo: as mulheres de hoje são fortes, são criadas para serem donas de suas vidas e não para se submeterem aos desejos e vontades do homem, ao contrário, os homens que se preparem para satisfazerem as mulheres modernas. Elas não precisam, e não querem precisar de homem nenhum, querem apenas levar suas vidas, sem se sentirem forçadas ao casamento pela sociedade ou quem quer que seja, querem ter seus filhos quando bem desejarem, ou não os terem, e querem ser livres para namorar, transar e gozar com quem desejarem. Os homens são hoje apenas acessórios, precisam ser muito mais inteligentes e preparados para ter o amor de uma mulher, elas não aceitam mais qualquer um que chega em casa todo dia bêbado e quer o jantar na hora certa, ele que se vire nesse caso, e se chegar muito bêbado e tarde corre o risco de não encontrar a mulher em casa, e não adianta fazer cena de ciúme depois, pois ela tem o dinheiro dela, o carro dela, as amigas dela e seu destino em suas mãos.

Nos dias atuais mulher nenhuma aceita viver subjugada, não só por que existem leis que as protegem, mas porque há muito tempo elas deixaram de ser apenas princesinhas e se emanciparam dos homens, que também não são mais seus príncipes, aliás isso é brega demais. Elas deram um basta às restrições que lhes eram impostas tanto pela família, a sociedade, assim como pelo mercado de trabalho, ainda tem algumas coisas a ajustar, mas alguém tem alguma dúvida de que em breve serão ajustadas? Eu não.

As Amélias podem até existir por aí, talvez nas roças, em lugares mais distantes dos grandes centros, mas elas estão cada vez mais consumindo informação, elas têm acesso à internet em seus poderosos smartphones, elas sonham e não apenas isso, querem também realizar seus sonhos e não viver pelo sonho de outro. Não acho que Amélias sejam realmente mulheres “de verdade”, talvez o homem bruto daquela época até acreditasse que isso sim era a mulher ideal, sei lá, mas eu não acho hoje e nem acharia naquele tempo sendo criado como fui. A mulher é tão cidadã quanto os homens, os direitos de um são os mesmos do outro e, infelizmente, ainda tem gente que acha que mulher é menos capaz do que o homem, mas na verdade elas são muito mais capazes do que nós homens, e não estou puxando o saco não, é verdade mesmo. Imagina alguém que em um dia consegue trabalhar fora cuidar dos filhos e da casa, ainda por cima cuidar da sua vaidade, pois não abrem mão disso, e tudo isso com um belo sorriso no rosto. Eu, homem que sou, pertencente ao dito sexo forte, não sou capaz disso, nem de metade, só de escrever isso já fiquei cansado e qualquer dorzinha me coloca de molho. Minha esposa, que não é nenhuma Amélia, pois trata-se de uma mulher forte, que vai à luta e me ajuda muito e ainda por cima gosta de mim do jeito que sou, chato, ranzinza e barrigudo, mas para por aí, aqui em casa eu tenho que ajudar, fazer comida de vez em quando e manter minhas roupas arrumadas na gaveta, além de eventualmente pagar umas contas.

Mulheres precisam ser vaidosas sim, elas se arrumam para elas mesmas e para outras mulheres como dizem e isso lhes faz bem, elas são o que há de mais belo nesse mundo, por elas viemos ao mundo, mesmo os machistas e os agressores de mulheres, foram gerados no ventre de uma mulher, não são como os pintos de granja, que têm sua gestação em incubadora e nem sabem quem lhes gerou dentro daquele ovo e o botou nesse mundo. Esses se esquecem de que vieram à luz do mundo por amor de uma mulher, a quem chamam de mãe e que certamente se alguém xingar ou lhe faltar ao respeito, vai se dar mal, então porque agridem mulheres? Talvez porque se sentem inferiores, fracos, impotentes e não conseguem satisfazê-las em nenhum sentido, sei lá, mas esse pode ser um bom caminho para tentarmos entender o que não tem explicação.

A mulher de verdade dos tempos atuais, não quer passar necessidade ao lado do seu homem, quer que ele seja provedor e se esse não conseguir ela assume essa incumbência sem problema algum, não fica à beira do tanque torcendo roupas e chorando as porradas que levou ontem ou a falta de comida na mesa, vai à luta para ter uma vida melhor e ter seus direitos garantidos e coloca seu homem no lugar certo que lhe cabe na vida a dois, às vezes esse lugar é fora de casa para sempre. Ela também não quer saber do “Amélio”, aquele sujeito que quer apenas ficar na sua aba, não mesmo, se quer ficar junto e não tem como pagar as contas, então divide as responsabilidades e está tudo certo, só não dá para ser vagabundo e aproveitador.

Novos tempos, novas atitudes, mulher não é objeto, exige respeito a seus desejos e à sua liberdade, além de querer viver intensamente sua vida com o que há de melhor e sem perrengue e nem marido bêbado enchendo o saco no domingo. A Amélia não existe mais, graças a Deus!

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