Revista Statto

A HERANÇA DE PONCIÁ VICÊNCIO

02/05/2021 às 22h17

Consequências emocionais do período escravocrata no Brasil.

Quem me conhece e acompanha a muito tempo, sabe o quanto eu admiro a escritora Conceição Evaristo e neste texto venho falar sobre o livro que mais gosto de sua autoria; Ponciá Vicêncio. A história narrada neste livro aborda como o período escravocrata impacta a estrutura brasileira de forma que mesmo após a dita abolição essas estruturas seguiam e ainda seguem ditando os rumos da população negra na sociedade.

O livro conta a história da personagem título, Ponciá, que vivia com sua mãe e irmão na roça e um dia decide partir para a cidade em busca de uma vida melhor com a intenção de se estabelecer e buscar sua mãe e seu irmão, porém, antes de chegar a este ponto a autora nos conta a infância da personagem e a vida pregressa de seus pais e avós.

Neste contexto descobrimos que Ponciá tem uma herança de seu avô para receber, mas ainda não nos informam a natureza desta herança. Entender a história de seus ancestrais é muito importante para entender sua trajetória e a conclusão da história.

Mesmo que o avô de ponciá tenha falecido com ela ainda muito jovem, a menina tinha lembranças muito fortes do avô, assim como seus trejeitos. Mesmo após a abolição da escravatura, a vida da família de ponciá não mudou muita coisa, viviam em terras que foram “cedidas” por seus antigos donos e continuavam trabalhando para estes mesmos senhores.

Quando Ponciá decide ir para a cidade, ela vai aspirando por mudanças e liberdade e com o tempo acaba se frustrando por se dar conta de que vive sob estruturas ainda mais complexas do que as que havia abandonado outrora.

Os capítulos seguintes descrevem Ponciá com um comportamento apático, mente perdida e uma melancolia profunda que eu identifico como Banzo (Processo psicológico pelo qual passavam os negros africanos escravizados que, em razão da serem levados para terras longínquas, ficavam num estado profundo de nostalgia, loucura, podendo levar à loucura ou à morte), fruto das expectativas frustradas, já que tudo aquilo que a personagem almejou não acontece e quando acontece não tem os resultados esperados e a dor da frustração somada a saudade da família e de tempos mais simples porém cheios de esperança estava consumindo Ponciá aos poucos.

Assim como a personagem principal, seus familiares e os negros que conhecemos quando somos apresentados a trajetória dela na cidade, possuem marcas das experiências individuais e também ancestrais e cada personagem reage conforme os recursos emocionais e estruturais que possuem.

A história de Ponciá Vicêncio me remete a tentativa de quebrar ciclos e não repetir histórias tristes dos seus antecessores que muitos de nós fazemos e muitas vezes nos damos conta de que é extremamente difícil, ponciá me lembra o poema Ismália onde a protagonista desejava tocar o céu e o mar ao mesmo tempo e diante da insatisfação de não conseguir alcançar seu objetivo acabou enlouquecendo, vejo este céu e mar como a busca incessante de uma liberdade real e a sensação de sempre que se tenta mudar a realidade acontece algo para nos “colocar no nosso lugar”.

Assim como Vô Vicêncio se revoltou com a situação em que vivia e ao se ver sem saída, se desesperou e tentou algo drástico sem sucesso e acabou enlouquecendo, o mesmo aconteceu com os que vieram depois, ainda que de formas diferentes, cada um fez com a herança ancestral o que as condições lhes permitiam.

Algo que me marca bastante na leitura é o fato de sempre sermos lembrados de que não importa onde iremos ou como faremos, não existe possibilidade de fugir da herança ancestral. A experiência de quem veio antes de nós, o que vivemos dentro da nossa família impacta diretamente em quem nós somos e seremos e quando essa experiência é dolorosa é importante ressignificar e transformar esse histórico em algo que nos fortaleça.

Ponciá, faz reflexões que muitas mulheres negras fazem ainda hoje, sobre sua condição de mulher preta no contexto social em que vivia e sobre ter filhos e se valia a pena por uma criança no mundo naquela conjuntura, medos que ainda nos atravessam. Em meio aos seus pensamentos, ela conclui que mesmo após as lutas dos seus avós e pais e mesmo saindo das terras de seus antigos senhores, mesmo na cidade, Ponciá ainda era escrava, escrava das condições em que vivia e seus contemporâneos também.

Chegar a essa conclusão é difícil, mas é importante entender que a luta dos nossos ancestrais não foi em vão, na medida em que resistimos, abrimos caminho para gerações futuras e encontrando resistência o racismo se reinventa e forma novas estruturas e precisamos e somente através do autoconhecimento podemos nos empoderar para lutar contra essas estruturas.

Ao final do livro, quando encontra sua família, ponciá está em um profundo sofrimento psíquico e sua mãe decide levá-la de volta para a casa, para os rios e para a terra de onde ponciá havia saído e na narrativa final conseguimos perceber que a herança de ponciá era cumprir a sina de seu avô e seus ancestrais e se reencontrar com suas origens resgatando assim sua identidade.

  • Eu não nasci rodeada de livros, e sim rodeada de palavras”.
  • Minha escrita é contaminada pela condição de mulher negra”.
  • O que os livros escondem, as palavras ditas libertam”.
  • E não há quem ponha um ponto final na história”. (Conceição Evaristo)
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SOBRE O AUTOR
Leticia Alvarenga

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COMENTÁRIOS

1 Comentário

  1. Avatar

    Que palavras tocantes e profundas, Letícia! Nossa vida é uma eterna reconexão com a nossa ancestralidade. Parabéns pela excelente escrita!

    Comentário por Dandara - dia 8 de maio de 2021 às 18:31
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