Revista Statto

AMANHECER DE NOITE

01/03/2020 às 21h43

As palavras têm uma capacidade quase invasiva de me mostrarem escrachadamente enquanto me escondem. Colocam véus coloridos em meus roteiros, sentenciando o ócio ao que há de mais importante a ser mostrado. A poesia, por si só, camufla a falta de importância pela capacidade intuitiva de fazer valer o simples e o menor. Aos olhos do mundo, coloca lentes de diminuição nas expectativas e nos conflitos, transformando em rima o caos maior da existência.

Sempre entendi que os pedaços das intenções não conformam sua inteireza, mas retiram o seu tédio de ser encaixada. Gosto de olhar para as ideias como pedaços soltos de entendimentos incompreendidos ao longo do tempo. Pensando em nossa mente como uma verdadeira caixa-preta das permanências, sinto o pensamento oblíquo às amostragens do que ainda não somos. Nesses ensaios incompletos de tentativas inúteis sobre quem vir a ser, coloco-me sempre à disposição do estado de inconstância. Um passo atrás do que serei, mas um passo à frente do que farei com isso.

Nessa descompostura com a previsibilidade, anseio as chegadas como quem não pensa no que virá. Uma sensação enaltecida do que, em algum momento, coloca-se como algo a ser descoberto pela criança que corre e bagunça todos os cômodos da casa. Sou a intenção infantil de fazer de modo despretensioso, angariando todos os insumos necessários para sentir o máximo dos prazeres pela ingenuidade de colecionar surpresas em meu inventário.

Acuso de criativo aquele que coloca em seu tempo a ocasião de não pensar. Penso nesses vazios como oportunidades cheias do que há de mais emblemático nos tempos que se reiteram agora. Somos uma mistura pouco nítida de esclarecimentos ao pé do ouvido, de onde retiramos a maior parte de nossas incompreensões. Aos solavancos, emancipamos as conversas com amenidades entediantes, colocando nas horas as circunstâncias que não desejamos verdadeiramente vivenciar.

Gosto de pensar que meu amanhecer é à noite. Coloco naquilo que os outros pensam como resto todas as sutilezas de interesse e primazia. Andar pelos recursos do que é visto como inútil faz da arte algo subliminar e necessário. Não por acaso, somos nós, os artistas, aqueles que movimentam as invenções quadradas dentro dos discursos e das ações movidas dentro de gessos.

Compartilhe!