Revista Statto

AUGUSTO, SINÔNIMO DE RESTAURANTE

26/02/2019 às 14h51

Existem certos lugares, como praças, cidades, bares ou restaurantes que superam em muito sua função de atender certas necessidades, como passeio, diversão ou alimentação, em razão de suas peculiaridades, das pessoas que os habitam, do ambiente criado e do atendimento dispensado.

Quando esses lugares especiais desaparecem, fica um vazio difícil de ser preenchido, mesmo por outros que aparentemente são melhores, mais bem aparelhados e modernos.

Um desses lugares únicos foi o Restaurante Augusto, que tive a oportunidade de conhecer ainda na década de 1970, quando passei a morar e estudar em Santa Maria, sempre com aqueles móveis antigos, aquelas toalhas brancas e aquelas cadeiras confortáveis.

Claro que à época minha frequência por lá era mais rara, não porque fosse caro, mas porque qualquer restaurante mais caro que o Universitário era um luxo para mim, que morava na Casa do Estudante e ganhava meio salário mínimo como monitor de Direito Civil.

Mas, quando algum colega mais aquinhoado e muito generoso fazia a gentileza de me convidar e, naturalmente pagar a despesas, sempre fui bem recebido pelo Senhor Augusto, um português bonachão, cheio de histórias para contar e sempre atento à todas as mesas, pouco importando se nelas estavam abancados deputados, senadores, prefeitos, plantadores ou criadores ou “pés-de-chinelo” como eu, estudante cheio de fome e absolutamente desprovido de condições econômicas de frequentar outras mesas que não as do Seu Manuel, do RU.

Era um dos poucos restaurantes da cidade que ficava aberto no dia 11 de agosto, o odiado Dia do Pendura, em que estudantes de Direito se achavam no direito de comer e sair sem pagar. Como sempre fui um chato, nunca participei dessas brincadeiras, mas tomava conhecimento que o Senhor Augusto separava algumas mesas e as reservava para os abusados que comiam, bebiam, não pagavam e ainda eram homenageados!

Não é à toa que depois de formados os “penduradores” voltavam, agora com grana no bolso, acompanhados de namoradas, esposas, filhos e amigos, renovando a mística de lugar de boa comida, bebida e muito respeito pelo cliente.
E, somando-se à diversas oportunidades que tive de frequentar o Augusto, já como Promotor de Justiça e advogado, jantei inúmeras vezes lá como membro ou Presidente da Academia Santa-Mariense de Letras, sendo sempre muito bem recebido e servido, por um preço justo.

Por isso que a notícia do encerramento (temporário ou definitivo, ainda não está bem claro) do Restaurante Augusto desperta tanta comoção e saudosismo.

Nunca participei, mas sei que ali se costuraram inúmeras alianças políticas, muitas candidaturas nasceram e muitas lideranças se consolidaram, em jantares e almoços que ficaram na história.

Muitas reuniões culturais e econômicas foram realizadas nos salões do Augusto, determinando a história de Santa Maria, o que se pode facilmente constatar nas atas dos trabalhos.

Naturalmente que aqueles que participaram desses jantares e almoços devem ter histórias saborosas e esclarecedoras da política local e estadual e devem ser provocados a contá-las!

A mim cabe lamentar o encerramento das atividades do Restaurante Augusto, como cidadão. Certamente que muitos e qualificados restaurantes existem e continuam funcionando em Santa Maria, mas mesmos esses tinham o Augusto como uma referência cultural e gastronômica.

Quantos encontros com amigos, com colegas de trabalho, quanta saudade!

Agora, quando viajo, muitas pessoas que um dia degustaram e aprovaram o galeto do Augusto, ao saber que sou de Santa Maria, dizem, pesarosas: É verdade que o Augusto fechou? Puxa, que pena!

Santa Maria está mais pobre, mais triste e menos hospitaleira. Mas, são os ciclos da vida e da economia.

Cabe aos demais restaurantes trabalharem para preencher essa triste lacuna e caprichar ainda mais para tentar substituir o Augusto, o que, sinto dizer, é quase impossível.

Espero que a notícia de que seria apenas um período de adaptação e modernização seja verdadeira.

Santa Maria já perdeu demais.

Uma lástima!

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