Revista Statto

FERNÃO CAPELO GAIVOTA É O IDEAL DE LIBERDADE QUE DEVEMOS BUSCAR

07/01/2021 às 10h09

Não há dúvidas acerca das capacidades libertadoras da leitura, há séculos, a humanidade progride e continua sucessivamente progredindo rumo a um futuro onde todos os tipos de conhecimentos poderão ser cada vez mais facilmente acessados, esse é o poder da informação descentralizada propiciada pela internet.

Nessa montanha de conhecimentos já presentes, sempre deixamos passar muitas produções que se analisadas mais afundo conseguem abrir a nossa mente para novas ideias, isso obviamente também é válido para os bons e velhos livros de papel.

Quem possui acesso a muitos livros sabe do que estou falando, como é difícil escolher um e começar quando você possui tantos ao seu alcance, contudo, quando você acidentalmente encontra algo “diferente” e dá a esse material uma oportunidade, pode acabar encontrando algo valioso.

Richard Bach foi um piloto de reserva da força aérea norte americana, quando se aposentou e começou a se dedicar a escrever, acabou incorporando aos seus livros a sensação de liberdade que sentia enquanto estava pilotando, em 1970 escreveu “Fernão Capelo Gaivota”.

Vou contar para vocês agora a história de Fernão Capelo Gaivota e como o seu espírito livre representa aquilo que todos nós, direta ou indiretamente, cedo ou tarde, acabamos perseguindo.

Para uma gaivota, todos os dias, sempre são iguais: acordar, comer, dormir, acordar, comer dormir…

Um ciclo que só termina com a morte, todos os bandos de gaivotas se contentam com as sobras dos pescadores ou aqueles pequenos peixes mais próximos da superfície do mar, o propósito das gaivotas é esse, todas elas aceitam esse destino, menos Fernão Capelo Gaivota.

Uma gaivota jovem e magra, pena e osso, através dos dias que se arrastam, começa a se questionar: comemos como um pretexto para poder voar ou voamos como um pretexto para poder comer?

Com exceção dele, para todas as demais gaivotas, a única atribuição do ato de voar é apenas para poder se alimentar, nada mais e nada menos, mas Fernão continua com a indagação do que é mais importante, voar ou comer.

Fernão logo descobre que consegue executar diversos movimentos com as suas asas, reduzir a velocidade dependendo de sua posição, realizar movimentos graciosos que apenas aves de rapina conseguem, tudo isso, simplesmente porquê, por livre e espontânea vontade, Fernão QUER mudar, Fernão Capelo quer ser bom em voar!

Obviamente que isso causou consequências, o bando de Fernão começa a exclui-lo, nenhuma gaivota quer ser próxima de alguém que pensa e age de forma tão diferente, todas as gaivotas querem fazer parte do bando, compartilhar os mesmos pensamentos e agir de forma coordenada, a comunidade das gaivotas está acima de qualquer liberdade individual.

– A mãe de Fernão o questiona: Por que você não é como os demais do bando?

– O pai de Fernão o adverte: Se quer ser bom em alguma coisa, seja bom em conseguir comida.

Fernão se entristece, desiste e volta a aderir ao comportamento do bando, mas o espírito libertário é mais forte e fala mais alto, Fernão volta a voar cada vez mais alto, conclui que ser igual a todo mundo não faz sentido, voando e se machucando, levantando e tentando novamente, experiência e erro, o caminho que Fernão escolhe é o da liberdade de pensar e agir.

– Fernão pensa enquanto voa: Tudo que me conforta me impede de crescer, enquanto eu continuar agindo da mesma forma, nunca irei melhorar, preciso encontrar os meus erros e defeitos e os corrigir, apenas assim irei conseguir me aprimorar cada vez mais.

Fernão sobe até quase os limites da Troposfera, em um mergulho direto, alcança a marca de 320 km/h, graciosamente rasga o oceano, com perfeição extrema, também consegue aterrissar, Fernão Capelo é a gaivota mais rápida do mundo, um feito incrível, só que não…

Fernão é chamado para o conselho das gaivotas, apenas duas coisas podem acontecer, honra ou vergonha, cercado por todo o bando, acaba sendo julgado pelos anciões, as mais velhas e sábias gaivotas, especialistas em acordar, comer e dormir.

Os anciões acusam Fernão de ser uma vergonha aos olhos de todo o bando, como pode uma gaivota desastrada e irresponsável violar a dignidade e a tradição da família das gaivotas? A irresponsabilidade de Fernão Capelo de achar que pode ser alguém diferente não pode ser tolerada.

Estamos nesse mundo para comer e para nos mantermos vivos tanto quanto pudermos! Conclama a mais velha das gaivotas.

– Fernão não aceita essas palavras e retruca: Nós temos que procurar um propósito mais elevado para a nossa vida, não podemos nos ater para sempre a isso!

Não há mais discussão, todas as gaivotas viram as costas para Fernão, essa é a punição suprema, Fernão Capelo está expulso do bando, o motivo? Ele se recusa a ser igual a todas as demais gaivotas.

Para um espírito livre, a solidão não é entristecedora, ela o fortalece, nela, encontramos a nossa verdadeira identidade, o que nos torna únicos e especiais, Fernão agora está totalmente livre para voar, quando você faz o que gosta, cada segundo passa a ser incrível.

Fernão vaga pelo mundo, novos continentes e oceanos, descobre novas correntes de ar, descobre que pode se alimentar de várias coisas diferentes, novas manobras, contempla novas paisagens, enfrenta incontáveis tempestades.

O que outrora desejara para o bando tinha-o agora só para si. Aprendera a voar e não lamentava o preço que pagara para isso. Fernão descobriu que o tédio, o medo e a ira são as razões por que a vida de uma gaivota é tão curta, e, sem isso a perturbar-lhe o pensamento, viveu de fato uma vida longa e feliz”. (Citação direta do livro).

Já muito mais velho e infinitamente mais experiente, durante um voo, Fernão Capelo encontra duas jovens gaivotas iluminadas que conseguem executar os mesmos movimentos que ele, essas gaivotas dizem que vieram para acompanhar Fernão até um novo mundo, Fernão ascende rumo aos céus!

Já chegando naquilo que considerou sendo o paraíso, Fernão se ilumina, atinge velocidades estrondosas, 409 km/h é a sua nova marca, contudo, ainda conclui que permanece sendo limitado, existem outras gaivotas no paraíso, todas elas buscando se aprimorar na bela arte que é voar.

Em mais um dia de intenso treino, Fernão questiona Henrique, a gaivota instrutora dos novatos no paraíso.

– Por que somos tão poucos Henrique? Onde estão os outros?

Nesse momento, acredito que tenho a obrigação de transcrever na íntegra toda a resposta de Henrique, justamente por considerar essa, a parte mais densa e reflexiva de todo o livro.

A única resposta que encontro, Fernão, é que você é um daqueles pássaros que se encontram num milhão. Quase todos nós percorremos um longo caminho. Fomos de um mundo para outro, que era praticamente igual ao primeiro, esquecendo logo de onde viéramos, não nos preocupando para onde íamos, vivendo o momento presente. Tem alguma ideia de pôr quantas vidas tivemos de passar até chegarmos a ter a primeira intuição de que há na vida algo mais do que comer, ou lutar, ou ter uma posição importante dentro do bando? Mil vidas, Fernão, dez mil! E depois mais cem vidas até começarmos a aprender que há uma coisa chamada perfeição, e ainda outras cem para nos convencermos de que o nosso objetivo na vida é encontrar essa perfeição e levá-la ao extremo. A mesma regra mantém-se para os que aqui estão agora, é claro: escolheremos o nosso próximo mundo através daquilo que aprendermos neste. Não aprender nada significa que o próximo mundo será igual a este, com as mesmas limitações e pesos de chumbo a vencer”.

Fernão continua, a sua sede insaciável por velocidade, manobras e conhecimento, cada vez mais aprendendo e melhorando, buscando a chamada perfeição.

Durante certa noite, Fernão questiona Chiang, a mais sábia, rápida e antiga das gaivotas do paraíso.

– Fernão pergunta: Aqui realmente é o paraíso Chiang? Existe algo além deste lugar?

– Chiang responde: O paraíso é ser perfeito Fernão!

Perfeição não é velocidade, números não são limites, a perfeição reside no ato de estar aqui e ali. Chiang atingiu um novo feito, ele se move na velocidade do pensamento, para Chiang, as gaivotas que ignoram o movimento por amor à perfeição chegam instantaneamente a todas as partes.

Fernão, ávido por aprender essa nova técnica, começa a ser treinado por Chiang, somente quando percebe que todos nós somos por natureza perfeitos e ilimitados é que de fato consegue, Fernão agora pode ir até o além, justamente por finalmente compreender que a sua existência não reside apenas no presente, o seu potencial é completamente infinito.

Sabendo que Fernão dominou a velocidade do pensamento, Chiang se ilumina mais do que nunca, rumo a um novo mundo, onde terá que aprender ainda mais, uma jornada eterna em busca de sua própria perfeição, confiando a Fernão o dever de guiar as novas gaivotas.

Após um mês de treino, Fernão começa a se recordar do seu antigo bando, conclui que deve voltar à Terra para ensinar as demais gaivotas a terem apreço pela liberdade, mesmo com o seu grande amigo Henrique dizendo a ele que essa tarefa não trará resultados.

– Henrique argumenta: Não faça isso Fernão, fique aqui, guiando a nós, as gaivotas que já estão em busca de suas próprias perfeições, essas gaivotas da Terra se preocupam apenas em gritar e lutar por migalhas, não acabe com a nossa amizade.

– Fernão gentilmente responde: A nossa amizade está muito além do espaço e do tempo, com certeza voltaremos a nos encontrar Henrique, agora, preciso ajudar aos outros a entenderem que eles são muito mais especiais do que acreditam.

Fernão não é mais composto de ossos e penas, Fernão é uma ideia, um ser iluminado, a perfeita imagem da liberdade e do voo que nada e nem ninguém mais consegue limitar, com a velocidade do pensamento, Fernão desaparece do paraíso, rumo a Terra, onde deverá agora abrir o caminho para as demais gaivotas.

Para uma gaivota, todos os dias, sempre são iguais: acordar, comer, dormir, acordar, comer dormir…

Um ciclo que só termina com a morte, todos os bandos de gaivotas se contentam com as sobras dos pescadores ou aqueles pequenos peixes mais próximos da superfície do mar, o propósito das gaivotas é esse, todas elas aceitam esse destino, menos Francisco Coutinho Gaivota.

Foi recentemente banido do bando, simplesmente por ter executado um barrel roll perto das mais velhas e sábias gaivotas, especialistas em acordar, comer e dormir.

Francisco agora quer ser um fora da lei e fazer o bando se lamentar de terem o expulsado.

Durante o seu voo, Francisco ouve em sua mente uma voz dizendo para ele não fazer isso, as demais gaivotas estão fazendo mal a si mesmas com essas ações, um dia elas entenderão esse erro e talvez possam o corrigir, quando olha para o seu lado, Francisco vê uma gaivota iluminada, essa gaivota é Fernão Capelo.

Com a condição de perdoar o bando e futuramente os ensinar o apreço pela liberdade, Fernão Capelo começa a ensinar Francisco Coutinho, em três meses, Fernão já possui mais seis discípulos, todos banidos do bando, os motivos? Todos eles não queriam seguir a tradição da comunidade das gaivotas.

Após intensos treinos e muitas lições, Fernão afirma que está na hora de todos eles regressarem até o bando.

Não nos desejam mais! Estamos banidos para sempre! Essa é lei que não pode ser desobedecida! Afirma uma das jovens gaivotas.

Nós somos livres para ir aonde nos aprouver e ser o que quisermos ser! Responde Fernão, partindo em direção ao bando.

A lei diz que devemos ficar, já Fernão diz que devemos ir, o que devemos fazer!? Pergunta uma das jovens gaivotas para as demais.

– Bem, responde Francisco, se não somos mais parte do bando, então não estamos submissos as suas leis, devemos acompanhar Fernão.

Feito isso, oito gaivotas, libertas da escravidão imposta pelas leis do bando, passam a 200 km/h em cima da praia, lideradas por Fernão, executam incríveis acrobacias.

Oito mil olhos de gaivotas, todas na praia, gritando, lutando, disputando migalhas, seguindo a lei do bando, tentando uma prevalecer sobre a outra, preocupadas apenas com o presente, com o agora, em se manterem vivas, todas elas, completamente travadas, admirando as façanhas aéreas de oito gaivotas livres, os banidos pela lei regressaram!

As mais velhas e sábias gaivotas, especialistas em acordar, comer e dormir, revoltadas com a situação urram aos quatro ventos:

Ignorem-nos! A gaivota que falar a um banido será banida! A gaivota que olhar para um banido quebrará a lei do bando!

Fernão e seus discípulos continuaram, todos os dias, treinando em cima da praia, graciosamente se aperfeiçoando mais e mais, Fernão e seus discípulos renegaram completamente todo tipo de impedimento que as leis das gaivotas criavam, voaram nas tempestades enquanto o bando miseravelmente se encolhia de medo na praia, a liberdade está acima de tudo, acima até mesmo de suas próprias vidas!

Apenas um mês depois é que a primeira gaivota finalmente pediu para ser treinada por Fernão, instantaneamente foi banida do bando, na outra noite, outra pequena gaivota pede também para ser treinada, contudo, essa pequena gaivota tinha um problema em uma de suas asas, ela tinha dificuldades para voar.

Fernão conversa com essa jovem gaivota e afirma:

Você é completamente livre para voar do seu jeito! Nada e nem ninguém pode te impedir de ser quem você quiser ser! Se liberte de suas amarras e abrace a liberdade de ser você mesmo!

Cheia de coragem, a jovem gaivota começa a voar, cada vez mais alto, cada vez mais rápido, com tremenda felicidade, ela começa a gritar:

Eu estou livre!

Todo o bando fica incrédulo com o que está vendo, como pode uma gaivota limitada e desajeitada fazer esses movimentos?

No outro dia, uma multidão de gaivotas aparece próximas de Fernão, todas elas perguntando, idolatrando ou injuriando Fernão.

Fernão Capelo logo conclui:

O preço de ser incompreendido, ser taxado de Diabo ou de Deus.

Um infortúnio acontece, Francisco Coutinho, enquanto ensinava as demais gaivotas, acaba tendo que desviar bruscamente de uma pequena gaivota perdida, atingindo um paredão frontalmente a mais de 300 km/h.

Essa é a grande oportunidade das mais velhas e sábias gaivotas, especialistas em acordar, comer e dormir:

Estão vendo? Esse é o grande mal de desrespeitar a lei do bando! Essa é a consequência da liberdade que vocês querem alcançar, apenas e unicamente a lei pode proteger a vida de vocês, se não querem ter o mesmo destino que ele, voltem agora a agir como verdadeiras gaivotas, vocês devem apenas comer e se manterem vivas!

Francisco Coutinho, de forma nada usual, bruscamente atinge a compreensão do que seria velocidade do pensamento e acaba abrindo os olhos no Paraíso, Fernão, já sabendo do ocorrido, vai até o seu discípulo para o alertar das escolhas que ele agora deverá fazer.

Se você ficar aqui, poderá aprender infinitas novas habilidades de voo com as demais gaivotas, contudo, o que aconteceu com você, será um pretexto para que os anciões consigam novamente acorrentar com as suas leis as demais gaivotas.

Somente a lei que conduz à liberdade é verdadeira, não há outra! Afirma Fernão.

Francisco decide voltar, quando acorda, as demais gaivotas o acusam de ser um demônio, todas viram que ele tinha se espatifado no paredão, ouriçadas pelos anciões, as gaivotas partem para cima de Francisco.

Na velocidade do pensamento, Francisco Coutinho e Fernão Capelo desaparecem da praia e vão para bem longe.

No outro dia, todo o bando já havia se esquecido do incidente, as gaivotas presas pelas leis possuem memória curta, apenas o presente importa, se todas seguirem a lei, todas poderão se manter vivas, a lei é tudo e apenas isso é o que importa.

Fernão, refletindo com Francisco, conclui que, agora que o seu primeiro discípulo entendeu o que de fato é ser livre, de corpo e de alma, esse bando, não precisa mais dele, Francisco poderá guiar a todos agora.

Francisco Coutinho agora está encarregado de guiar a todos desse bando, existem muitos outros bandos e existem muitas outras jovens gaivotas perdidas, que precisam apenas de uma pequena ajuda para se libertarem das correntes dos seus bandos e finalmente buscarem a liberdade, buscarem a perfeição!

Francisco Coutinho, feliz de saber que o seu amigo Fernão Capelo confiou a ele essa tarefa e confiante que algum dia iria alcançá-lo, parte para ensinar várias gaivotas que estavam indo até ele, buscando a perfeição, buscando a liberdade.

Boa parte daquilo que enfrentamos diariamente em nossas vidas continuamente acaba tentando nos limitar e nos acorrentar aos nossos corpos, pessoas que são especialistas em acordar, comer e dormir sempre buscam uma oportunidade de cercear a nossa liberdade e tomar a nossa alegria pelo simples ato de existir, mas eles NUNCA poderão acorrentar a nossa alma!

Nunca se permita achar que apenas porquê o momento não é propício, por causa de problemas familiares, financeiros e até mesmo físicos que você será para sempre um pássaro enclausurado.

Somente quando aceitarmos a nossa singularidade como uma virtude é que realmente encontraremos paz e estaremos libertos!

Sonhe, deseje, cobice, aproveite o presente, mas sempre vislumbre um futuro cada vez melhor, você é único e especial, ninguém nunca poderá dizer o contrário, faça com que as pessoas que te cerquem também entendam a importância de sempre abraçar a liberdade, ensine os demais a voar, mesmo com os seus próprios problemas.

Nunca desista e continue tentando até chegar a um ponto em que, assim como Chiang, assim como Fernão Capelo, assim como Francisco Coutinho, todos nós iremos nos iluminar e ascender rumo a eternidade, rumo a eterna busca pelo conhecimento, pela liberdade, pela perfeição!

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