Revista Statto

FUTURO QUEIMADO

11/10/2020 às 16h51

Neste momento, é impossível falar de meio ambiente sem fazer menção às queimadas que estão deixando o céu do centro-oeste e do norte do País colorido por um amarelo apavorante, contrastado pelas tristes imagens de árvores retorcidas sendo reduzidas a cinzas. É um cenário muito triste e desolador, esse de dor e agonia para animais que morrem dessa forma tão sofrida, para aqueles que ainda conseguem sobreviver com feridas terríveis e também de pessoas que, de alguma forma, em menor ou maior grau, são vítimas desse crime ambiental.

A grande maioria dos incêndios do Pantanal e da Amazônia é de origem humana, como explica o cientista Carlos Nobre, pesquisador de longa carreira e reconhecido internacionalmente pela seriedade e dedicação profissional ao meio ambiente. Ele é pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo e presidente do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas.

Em entrevista à BBC Brasil, ele explica que “mapeamentos bastante rigorosos, feitos em 2020, tanto pelo Inpe quanto pela Nasa, mostram que acima de 50% da área queimada na Amazônia é mata derrubada. É o famoso e tradicional processo de expansão da área de agropecuária. E quase tudo, acima de 80% dessa expansão, é feita por grandes propriedades, não é o pequeno agricultor ou o caboclo ou a roça indígena. O pequeno agricultor e o caboclo usam fogo, todos usam, mas o número de área queimada pela pequena agricultura é relativamente pequeno. A grande maioria é área queimada pela expansão de grandes propriedades”.

Ou seja, há um grande prejuízo para muitos em nome do benefício de poucos. Mesmo porque, como explica o cientista nessa entrevista, não há nenhuma relação entre produção e desmatamento. De acordo com ele, entre 2005 e 2014, “o desmatamento caiu de mais de 20 mil km² para menos de 5 mil km² por ano, e a produção agropecuária na Amazônia dobrou”. Portanto, não faz sentido imaginar que o desmatamento seja necessário para que algum tipo de produtividade aumente ou dele dependa.

A floresta de pé é uma grande fornecedora de serviços ambientais. É nesse sentido que gostaria de convidá-los/as para refletir sobre essa questão. Afinal, muitos podem pensar: “mas o que essas queimadas, esse desmatamento, tem a ver com a minha vida”?

Pois então, tem a ver com a manutenção da nossa vida como a conhecemos hoje. Por exemplo, a água que consumimos está armazenada em bacias hidrográficas, reservatórios e aquíferos inseridos nesse ecossistema. Além disso, as florestas regulam os níveis de gases atmosféricos poluentes e também aqueles que afetam o clima, além de controlar erosão, enchentes e poluição. Dependemos de tudo isso para sobreviver.

Por outro lado, já está comprovado o mal que o desmatamento causa à nossa saúde. Pesquisadores mostraram alguns dos efeitos de queimadas nas Ilhas Bornéo, na Indonésia, são doenças asma, bronquite, conjuntivite, entre outras.

A fumaça das queimadas no Pantanal leva às cidades os malefícios do crime que está sendo cometido. No Hospital Infantil Cosme e Damião, que atende todo o estado de Rondônia, foram realizados 120 atendimentos de crianças com problemas respiratórios de 1 a 10 de agosto, e 380, de 11 a 20 daquele mesmo mês. Não é só na área de saúde que há prejuízos, mas também na econômica, com muitas empresas deixando de investir no Brasil por conta da forma que descuida de seus biomas.

O que podemos fazer para ajudar? Bem, podemos começar ao escolher governantes que entendam que conservação ambiental não é conversa de ecochato, mas sim tema sério que merece toda a atenção por conta da influência que exerce na saúde, na economia e em outras esferas. Seria ótimo se também entendêssemos nosso papel de cidadãos e cobrássemos das autoridades ações para extinguir esses crimes ambientais. O que não podemos fazer é silenciar, acreditando que não adianta fazer essa cobrança. Temos que fazer a nossa parte para que nosso futuro, o futuro das próximas gerações, não seja queimado.

BARIFOUSE, Rafael. Amazônia: agricultores causam maioria das queimadas, e não índios e caboclos, diz cientista Carlos Nobre. BBC News Brasil, São Paulo, 23 de set. de 2020. Disponível em https://www.bbc.com/portuguese/brasil-54259838. Acesso em: 25 de set de 2020.

RIBEIRO, Helena; ASSUNÇÃO, João Vicente de. Efeitos das queimadas na saúde humana. Scielo, 2020. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142002000100008#:~:text=Dentre%20os%20sintomas%20de%20doen%C3%A7as,cardiovasculares%20(Radojevic%2C%201998). Acesso em: 25 de set de 2020.

TURBIANI, Renata. Fumaça de queimadas é ameaça à saúde pública, alertam médicos. BBC News Brasil, São Paulo, 22 de ago. de 2020. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-49430367. Acesso em: 25 de set de 2020.

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Maria Carolina Ramos

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