Revista Statto

OS INVISÍVEIS FIOS DA VIDA

11/10/2020 às 17h31

Havia, na tarde, um certo ranço, um jeito descomprometido do sol se infiltrar por entre as folhagens. Até os escassos trinados dos passarinhos soavam preguiçosos. Passeou os olhos pela luz que incidia no muro descascado e ia lamber as flores que eclodiam no jardim. O encontro entre as réstias de sol e o balanço das árvores, impulsionadas pelo vento, explodia em exuberantes desenhos na calçada recém-refeita. Etéreas bailarinas, fantasmas camuflados de pássaros, retângulos distorcidos e um rosto. Desviou o olhar. O dia, enamorado, se deixou sucumbir nos braços da noite, que já se envolvia de estrelas e escureceu, levando consigo as angústias dela. Apesar da aparência mansa, Isabela alimentava fúrias inconfessadas, feras ansiosas para romperem amarras. Onde escondi a ternura? – Questionava-se. Deslizou até o campo que se apresentava verdejante e convidativo para brincadeiras ou meditação.

Procurava, em algum lugar escondido, coisas que desejou ter realizado, verdades afogadas na espera de espaço porque não lhe deram tempo para a revelação. Deu-se conta de que havia desprezado uma fase mais branda, mais plena de detalhamentos e se infiltrara em nebulosidades inconsequentes, que, no final, não resultariam em nada. Não poderia mais retroceder. Soltara, com sofreguidão exagerada, o fio que mantinha no ar segura a pandorga que bem poderia simbolizar a vida dela. Encantavam-na os rodopios do frágil serzinho no ar. Esticava o barbante. Reduzia-o para ver a pipa correr como um pássaro pelo céu. Depois a puxava bruscamente para certificar-se de que ainda estava no comando. Sentia que, por meio do brinquedo tão inocente, serpenteando nos ares, buscava a libertação. Desafiava-o e se desafiava, enviando-lhe, através do fio esticado, palavras cifradas, escritas de véspera e com cuidado, em quadrículas de papel-cartão.

O brinquedo, se escapulisse do barbante e voasse sem controle, cairia em algum lugar. Se tivesse sorte, alguém leria as palavras dela. Algum menino, radiante pelo achado, talvez, nem se desse conta do recado que almejava por decifração. Um adulto bem-intencionado, que soubesse capturar o que tentara imprimir nos escritos, esperava, seria o seu salvador ou seu carcereiro. Deu-se conta de que estava tomada de um sentimento que não conseguia decifrar o sentido. De que lugar emaranhado dela surgiu? Onde se aconchegou e por que a torturava sem compaixão? Num rodopio da pandorga, se decifrou. (Não covid-19! Covid 20). A piadinha nem tinha muita graça. Estava mais para humor negro, mesmo assim gargalhou. Riu tanto que, distraidamente, soltou o fio que a mantinha presa à pandorga. Olhando-a fugir rasgando o azul do céu, confundindo-se com os pássaros que lhes imitava o voo, percebeu que o medo era irrefutável: o vírus surgido na China, com o intrigante formato de coroa, se não aniquilasse todos os humanos, talvez pudesse aprimorá-los, para o bem ou para o mal. Quem já era bom, se tornaria muito melhor. Os maus aprimorariam a maldade. Procurou a pandorga no ar. Viu apenas um balão de gás que se afundava nas nuvens. Sorriu. Lembrou-se dos filhos e dos netos e se sentiu Clarice, porque, quando tudo se diluísse, na memória deles, poderia ter deixado algum vestígio.

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Arlete Gudolle Lopes

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