Revista Statto

A BORBOLETA E OS BRASILEIROS

13/11/2020 às 12h03

Eis uma borboleta amarela que vai e vem em voos ousados que só ela domina. Aquieta-se planando rasante às folhagens que se balançam ao ritmo do vento. O que há em meu quintal que motiva a permanência da borboleta? Serão as mágicas figuras desenhadas pelas sombras que as escondem do sol?

As cores infiltradas nas vidraças que roubam a policromia da vida? Os cheiros variados que emanam do solo? Flores, não! Murcham pelo egoísmo das chuvas ensaiadas e, há tanto tempo, ausentes.

O que será que mantém a borboleta num incessante ir e vir? Risos de crianças não são. Há muito as minhas alçaram voo. Resto de comida não poderá ser. Borboleta é muito seletiva nos manjares.

Essa figurinha paradoxal e frágil é um doce hino de exaltação à vida, testemunha viva da inexorabilidade e da presença da morte.

Estendo a mão da amizade. O inseto aceita o oferecimento e pousa entre dedos que não são ameaças. Paradoxais são as vontades: a da borboleta que tem asas para voar para onde quiser e a minha cujas pernas me retêm no caminho.

Sinto inveja da borboleta amarela que pode voar por outros quintais, mas voa num espaço limitado de casa com número, em rua com nome, em cidade perdida num país sem rumo enquanto estou aprisionada pela decepção, estarrecida com os escândalos que assolam o Brasil e por sentir o desencanto do povo que assiste a tudo e se cala, como se tivesse deixado de acreditar em sonhos e lhe houvessem arrancado, das entranhas, a esperança de ver florir um país ético, vigoroso e rico.

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