Revista Statto

Uma arte que tece vida

18/12/2018 às 02h00

Meio ponto, perna cheia e trança. Almofada, alfinete, risco, linha. Tramoia. Sete pares. Buchada. Maria Morena. 45 pares. Ritmo. Musicalidade. Destreza. Criatividade. Tradição. Cultura. Modo de vida. Renda. Renda de bilro.

Em metro ou em peças únicas e individuais. Esse é o fio da meada que tece o universo de Dona Gercina Maria Florindo. Porém chamada por muitos de Dona Gercida. “Botaram assim, e toca prá frente, viver toda a vida!”. Assim se apresenta a nativa da Barra da Lagoa, com 85 anos, que desde os 4 anos já trocava os “bilrinhos” na mão e que com 7 já percorria o morro da Praia Mole, fazendo aproximadamente 8 Km de caminhada, para chegar à Lagoa da Conceição e vender rendas a metro, golas, jogos de trilho e guardanapos produzidos por ela, sua mãe e sua vó.

Ela conta que quando aprendeu a arte não existia alfinetes. “Eu catava espinho no mato, na folha de Arumbeva. E a linha era a de costura mesmo, um só fio, bem singela”, relata Dona Gercida, que também tecia rede para a pesca de camarão. “As mulheres faziam isso, e os pais e filhos homens faziam os bilros e ficavam embarcados”, esclarece e completa: “enquanto eles estavam no mar, também fazíamos roupa, vestido, calcinha, cueca, calça, lençol, tudo com saco de farinha, e com o cordão que fechava ele, a gente pegava para aprender mais ainda”.

Nesse momento, a senhora de cabelos brancos, cortados por ela mesma no banho, que afirma querer morrer na Barra da Lagoa, extravasa sua humildade: “a gente usava corante de planta e tingia as roupas, porque a domingueira era toda prosa”. Domingueira era a missa rezada na então capela, em frente ao mar. Ela prossegue dando sua lição de vida: “Senti o primeiro gostinho de viver bem quando casei, porque meu marido tinha farinha para o ano todo. Criei meus sete filhos, (tive 11, mas 4 morreram), com o bilro. Mas sempre na dificuldade. Criei todos eles com mingau d’água, pirão de café ou de farinha. E olha aí estão todos aí bem fortes”, destaca, apontando para o rebento mais novo, com cerca de 45 anos. E segue: “carne era só no Natal, que depois de 15 dias o moço vinha em casa cobrar o tanto que pedíamos para aquele dia especial”. Para fins de melhor entendimento, mingau d’água é feito com água morna, farinha e um pouquinho de açúcar.

Numa mistura de orgulho e resiliência, ela ressalta que para a construção de sua primeira casa ela e o marido gastaram 2 mil réis. Gasto esse despendido para a mão de obra. “A casa foi feita de barro, que tiramos do morro; a madeira para os estuques (leia-se estacas) era do mato”, explica Dona Gercina.

Ao ser questionada sobre o porquê de ainda fazer bilro, é enfática: “não vou tirar a vida de ninguém indo para a casa dela.  Então fico aqui fazendo bilro e cuidando da minha vida e das minhas plantas. O bilro sei fazer, e quem vai dar emprego para uma pessoa como eu, né? Daí fico aqui no meu mundo, fazendo a minha vida, e sou feliz e muito agradecida assim”.
A arte do bilro, trazida pelos açorianos, é mais presente entre os nativos como Dona Gercida, e que ainda é passada para gerações mais novas dessas famílias, hoje como hobby, não mais como um fio que tece uma história.

Faço renda, sou rendeira
Faço renda de montão
Faço renda, sou rendeira
Prá manter a tradição.

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Grazy Braga

Por

@grazibraga610Florianópolis/SC